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"Arrastão celular" identifica proteínas do câncer
Não adianta pegar um peixe de cada vez. O melhor, quando se tenta ganhar uma
briga contra o câncer, é fazer um arrastão até encher a rede. Por causa disso,
pesquisadores do Instituto Ludwig de Pesquisa Sobre o Câncer, em São Paulo,
resolveram criar uma ferramenta de estudo da doença que vai vasculhar muitas
proteínas de uma só vez nas células. Mais precisamente, 3.591.
A escolha não foi aleatória, explica Sandro de Souza, do Ludwig. "A idéia é
fazer um "surfaceoma" [ou "superficioma']", disse o cientista à Folha. O
conceito foi apresentado ontem (3) durante o Congresso Brasileiro de Genética,
em Águas de Lindóia, interior paulista.
Entraram na rede de pesca do grupo de pesquisa apenas as proteínas que são
exibidas na superfície das células. Daí o apelido cunhado pelo grupo do Ludwig
--em alusão a outros "arrastões" do gênero, como o genoma e o proteoma.
"Isso porque será mais fácil, no futuro, desenvolver drogas contra elas. A
maioria dos medicamentos desenhados hoje contra o câncer atuam sobre esses
compostos", explica.
Mas isso não significa, alerta o pesquisador, que os resultados serão obtidos de
forma fácil ou rápida. "Ainda teremos muitos anos de trabalho pela frente nesse
projeto", disse.
Depois da pescaria, e de olhar apenas para os "peixes" que ficam na superfície
do mar fazendo a interface entre o exterior e o interior do oceano --imagem que
também pode ser transportada para o nível celular, no caso das proteínas-- Souza
e seus colaboradores querem dar um passo além.
O objetivo deles é encontrar aquelas moléculas que devem estar presente com mais
freqüência nos diversos processos tumorais já estudados.
"Ainda é muito cedo para falar sobre quais tipos de câncer vai ser possível
focar primeiro, mas tudo indica que entre eles estarão, por exemplo, os de
cólon, pulmão e de cabeça e pescoço", disse o cientista.
Promessa não-cumprida
A idéia de criar uma metodologia que olhe para o universo dos dados gerados
pelos projetos genoma espalhados pelo mundo --que até hoje, quase uma década
depois da finalização do genoma humano, ainda não se traduziram em aplicações
médicas-- é mais uma tentativa de fazer com essas pesquisas dêem resultados mais
práticos. De acordo com Souza, é natural que exista um "descontentamento na
sociedade".
"Na época áurea dos genomas sempre se achou que as coisas seriam, talvez, bem
mais rápidas, mas não é assim."
O projeto do Ludwig também terá a colaboração de outros grupos de pesquisa. Além
da metodologia desenhada para jogar sua rede sobre as proteínas, deverá contar
com dois outros trunfos: "Além da nossa base de dados, na qual confiamos, vamos
usar várias outras bibliotecas genéticas geradas no mundo", explica Souza.
O trabalho de bioinformática, área de pesquisa de Souza, também será fundamental
para conseguir separar os peixes que interessam do resto do material que vem
junto na rede. "Os programas desenvolvidos por nós, por exemplo, já foram
importantes para chegar até as 3.591 proteínas", explica o pescador molecular.
Até o ano que vem, ele espera refinar sua rede para reduzir esse total para
algumas dezenas de proteínas --só os peixes grandes.
EDUARDO GERAQUE
Fonte: Folha de S.Paulo
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