|
 |
Proteína fatal
Uma importante descoberta na área da cardiologia deverá aprimorar ainda mais
os tratamentos das doenças cardiovasculares. Uma equipe formada por
pesquisadores de vários países anunciou que a proteína C reativa, uma molécula
produzida no fígado e usada pelo sistema de defesa do organismo, é o mais novo
fator de risco confirmado para patologias como o infarto e acidentes vasculares
cerebrais.
A notícia foi um dos grandes destaques do Congresso Americano de Cardiologia,
que aconteceu na semana passada nos Estados Unidos. Ela é o resultado de um
estudo internacional que envolveu 17,8 mil pessoas de 27 países, entre eles o
Brasil.
Clique para ampliar
A PC reativa, como é chamada, vinha sendo estudada pelos médicos há alguns anos.
Quando se apresenta em concentrações mais elevadas, denuncia a existência de um
processo inflamatório dentro do corpo. Isso ganhou importância quando se
descobriu que o infarto é provocado pela combinação do acúmulo de placas de
gordura na parede das artérias com a inflamação decorrente desse problema. "Esse
núcleo de gordura se inflama e se rompe. Células de defesa do organismo se
agrupam para tentar estancar, mas acabam formando o coágulo, o que causa o
infarto", explica o cardiologista Andrei Spósito, presidente do Departamento de
Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Porém, até hoje acreditava-se que a proteína só se expressava em quantidades
preocupantes do ponto de vista cardíaco quando o processo já estava adiantado.
Imaginava-se que índices elevados só aparecessem em indivíduos portadores de
fatores de risco tradicionais, como obesidade e fumo. Testes para medir sua
presença eram feitos mais para confirmar o problema, não para denunciá-lo. O que
o novo estudo mostrou foi que a proteína pode, sim, aparecer aumentada mesmo na
ausência de ameaças conhecidas. Isso significa que uma pessoa sem nenhum fator
aparente pode apresentar níveis extrapolados, ou seja, esse indivíduo também
está em risco, embora ninguém desconfiasse disso.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores avaliaram a redução do risco
cardiovascular em pessoas que apresentavam índices preocupantes de proteína C
reativa mas que não tinham perfil para sofrer de problemas cardiovasculares.
Metade foi tratada com doses diárias de rosuvastatina, um tipo de estatina. Esta
categoria de remédios é indicada para reduzir o colesterol ruim e aumentar o
bom. O restante recebeu placebo.
Um ano e nove meses depois, os pesquisadores identificaram uma redução de 44% no
risco de eventos como infarto e acidente vascular cerebral (avc) e diminuição de
20% da mortalidade entre os pacientes medicados com a estatina. Isso ocorreu
porque esses medicamentos também possuem efeito antiinflamatório. "Ou seja,
ficou demonstrado que essa proteína é um indicador extremamente importante de
que algo grave pode estar ocorrendo nos vasos sangüíneos. Mas também ficou claro
que é possível reduzir eventuais prejuízos se agirmos rápido", afirma o
pesquisador Jacques Genest, um dos líderes do estudo. O resultado foi
considerado tão contundente que o ensaio clínico acabou interrompido antes da
conclusão final.
A constatação implicará mudança no tratamento. "É uma das mais importantes
descobertas dos últimos anos. Irá repercutir nas atuais práticas clínicas",
afirma Francisco Fonseca, coordenador do Setor de Lípides, Aterosclerose e
Biologia Celular da Universidade Federal de São Paulo e também um dos autores da
pesquisa. A primeira alteração será recomendar o teste para medir a PC reativa
mesmo a indivíduos que não manifestam fatores de risco mais comuns, como
colesterol total aumentado e sedentarismo. "Agora, diante deste resultado, este
procedimento tornou-se necessário", afirma o cardiologista José Pedro da Silva,
do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Outro procedimento será
ampliar o uso das estatinas por causa da confirmação de seu efeito
antiinflamatório - com a ressalva, é claro, de que o remédio pode produzir
efeitos colaterais como sobrecarga ao fígado. Para Antonio Carlos Chagas,
presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, as medidas darão força à
medicina preventiva.
"Mesmo quem não tem sinais de risco para infarto deve medir a concentração da
proteína"
"Temos que evitar que as doenças ganhem uma dimensão tão grande que fique
difícil derrotá-las", diz.
Fonte: (Revista Istoé)
Jornalista: Greice Rodrigues
|